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Homem de blazer cinza e camiseta preta, óculos de armação escura, braços cruzados e sorrindo, em ambiente externo com árvores verdes ao fundo

Comandante Ramos transformou uma crise que quase fechou a escola em método — e batizou de Triplo Fox a receita que já havia funcionado dentro de um cockpit

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Foco, força e fé:
a fórmula de voo
do Comandante Ramos

Piloto, conselheiro da Azul Conecta e fundador de uma escola de aviação avaliada em dezenas de milhões, o Comandante Ramos aplica em qualquer operação a mesma leitura de mercado que aprendeu aos 12 anos, vendendo limão no quintal de casa.

Por Fernanda Sodré

Há uma frase que o Comandante Ramos repete como quem já testou sua utilidade em situação real: “foco, força e fé — não tem mais nada, é a receita de bolo.” Não nasceu de palestra de motivação. Nasceu de duas vezes em que precisou dela de verdade — uma dentro de um cockpit, outra dentro do próprio negócio, quando a empresa que ele havia fundado quase não resistiu à pandemia. Essa fórmula, que ele mesmo batizou de Triplo Fox, é o fio que liga toda a trajetória a seguir.

Do quintal de Pirapora ao conselho da Azul

Aos 12 anos, no quintal de casa em Pirapora, interior de Minas, o Comandante Ramos já sabia qual vizinha preferia o limão galego mais amarelo, qual torcia pelo tahiti mais verde, e quanto tempo durava, em média, uma sacola de doze unidades vendida a 50 centavos. Manga não vendia — a cidade inteira tinha de sobra. Limão, sim: demanda garantida, toda semana. “Era um CRM feito de cabeça”, ele brinca hoje, décadas antes de ouvir a sigla pela primeira vez numa sala de MBA.

Aos 14, trocou o limão pelo aeroporto da cidade. Lavava avião, ajudava mecânico, e recebia em troca voo de cortesia. Foi o início de uma paixão que, dezesseis anos de Azul depois, o levaria a pilotar praticamente toda a frota da companhia como comandante internacional — e a acumular, pelo caminho, meia dúzia de cargos de chefia que a maioria dos pilotos nunca chega a ocupar: coordenação de pilotos, padrões de voo, implantação de rotas internacionais. Foi essa combinação rara, de quem entende o avião por dentro e a planilha por cima, que o credenciou para o convite que mudaria a segunda metade da carreira: assumir a presidência da Azul Conecta, recebida com caixa negativo e patrimônio líquido invertido.

Dois anos de reconstrução depois, os números fechavam — pontualidade e regularidade em alta, patrimônio de volta ao positivo, e a unidade virando, sem que ninguém tivesse planejado assim, um laboratório para o resto da Azul. Testes de inteligência artificial aplicada a escala de voos começaram ali, antes de o tema virar pauta obrigatória em qualquer conselho de administração — e o que dava certo na unidade pequena migrava depois para a operação principal. Em 2025, com a Safe em ritmo de crescimento que exigia atenção integral do fundador, ele passou a presidência a outra pessoa e permaneceu um ano como conselheiro, para conduzir a transição. Hoje segue como consultor de tecnologia e inovação da Azul — e está de licença não remunerada como piloto, dedicado por inteiro à própria empresa, com a expectativa de voltar a voar com mais frequência no ano que vem. “Morro de saudade, adoro pilotar”, diz, sobre uma ausência que descreve como decisão, não como perda.

Homem com uniforme de piloto segurando bebê com laço na cabeça, mulher ao lado com vestido branco e menino à frente, posando em hangar com avião ao fundo com a inscrição Walt Disney World
A escola que quase não sobreviveu à pandemia foi reconstruída enquanto a família crescia — os dois processos correram em paralelo

Uma escola que quase não resistiu à pandemia

A Safe nasceu em 2018 de uma equação que só se monta depois de anos selecionando pilotos por dentro de uma companhia aérea: uma dificuldade pessoal — a que ele próprio teve para se formar —, uma dor real de mercado — escolas ruins, formação básica deficiente no Brasil — e a vontade de criar um programa de bolsas para quem tem talento, mas não tem dinheiro para pagar a formação. Fez MBA na FGV, montou o plano de negócio, saiu para captar um milhão de reais para os dois primeiros aviões. Previu seis meses de captação. Fechou em um. A sede foi instalada em São José dos Campos, no Vale do Paraíba — polo histórico da aviação brasileira, onde anos depois a escola ganharia também uma segunda unidade, em Campinas.

Um ano depois de certificada pela ANAC, em agosto de 2019, veio a pandemia, e com ela o momento mais perto que a Safe já esteve de fechar as portas. “Imagina ficar com todos os aviões parados, sem receita, num momento desafiador”, lembra o Comandante Ramos, sem tentar suavizar o quanto aquilo doeu. A recuperação veio por dois caminhos ao mesmo tempo: por dentro, a decisão de abrir uma frente de pilotos hobby — hoje 10% da base, com meta de chegar a 30%, decisão tomada, segundo ele, para nunca mais colocar todos os ovos na mesma cesta; por fora, a chegada, no fim de 2020, de um dos maiores influenciadores de aviação do país como aluno, atraído pela estrutura de segurança que a escola tinha mantido mesmo em crise. Em 2021, a virada de faturamento resultou numa rodada Série A: 5% da empresa vendidos por 3 milhões de reais, avaliando o negócio em 60 milhões — pouco mais de um ano depois de quase fechar.

Hoje a Safe já formou mais de 500 pilotos, 90% deles rumo à carreira profissional em companhias aéreas, e se tornou a maior fornecedora de pilotos para o setor no país — resultado, segundo ele, de formar um piloto tão preparado que a própria companhia aérea gasta menos para treiná-lo depois. A expansão segue para fora dos grandes centros — Maricá no Rio, avaliação de Piracicaba e Americana no interior paulista — sempre fugindo da disputa por espaço aéreo nos aeroportos já saturados da capital. Oitenta por cento da frota é fabricada no Brasil, escolha que ele trata como parte do próprio negócio, não como discurso: fortalecer a indústria aeronáutica nacional é também garantir fornecedor.

O café que ensinou a ouvir

Se tem um episódio que o Comandante Ramos aponta como o que mais mudou sua forma de liderar, não foi numa sala de reunião. Foi numa madrugada em Porto Velho, decolagem marcada para as 4h rumo a Manaus — uma hora inteira sobrevoando floresta, sem nenhum aeroporto para pouso alternativo no meio do caminho. A tripulação anterior tinha reportado cheiro de fumaça a bordo. Mecânicos vasculharam o avião, não encontraram nada, mas o cheiro continuava ali, e a decolagem se aproximava. Foi a comissária mais nova da equipe, ex-vendedora de perfumes, quem resolveu o impasse: o olfato satura, explicou, e passa a sentir cheiros que já não existem mais — no antigo emprego, resolviam isso fazendo o cliente cheirar café entre uma fragrância e outra. A tripulação cheirou café, checou de novo as saídas de ar, confirmou que o cheiro tinha sumido. O voo partiu com atraso, mas sem risco.

“O importante é você dar ouvidos para todo mundo, inclusive para o mais novo”, diz ele — e não é frase de efeito, é o que aplica todo dia na Safe, insistindo em ouvir cliente direto, sem intermediário, mesmo quando o time interno garante que está tudo certo. 

É a mesma lógica, ele lembra, que levou a Azul a se tornar a única companhia aérea brasileira eleita número um do mundo pelo TripAdvisor, à frente de Emirates, Qatar e Etihad — eleição decidida por passageiro, não por especialista.

Como vê o setor daqui pra frente

Fora da própria empresa, seu olhar sobre a aviação brasileira é de analista, não de quem está apagando incêndio. Falta piloto no Brasil e no mundo, diz ele, mas o gargalo é formação, não vontade: metade dos alunos da Safe desiste no meio do curso, menos pela dificuldade técnica e mais pela falta de foco de uma geração pouco habituada a um aprendizado que exige simulador, horas de voo e tolerância ao erro repetido. O resultado é um paradoxo que o país ainda não resolveu: forma piloto e vê a Emirates recrutá-lo pagando de três a quatro vezes o salário local — fornecedor de mão de obra para o mundo, sem conseguir reter profissional em casa.

Sobre inteligência artificial substituir piloto, ele descarta sem meio-termo — não por apego à profissão, mas por cálculo de risco: avião sem piloto humano é avião vulnerável a invasão de sistema, e o custo de uma falha aí não se compara a nenhum ganho de eficiência. Ainda assim, a frota da Safe já é a mais moderna do país, com cockpit inteiramente digital e telemetria completa, formando um piloto que decide cada vez mais por dado e cada vez menos por sensação. A internacionalização é o próximo capítulo — represado hoje por barreira regulatória, já que a ANAC ainda não aplica prova em inglês, e pela necessidade de ao menos dez aeronaves a mais antes de receber aluno estrangeiro em volume.

No mapa da aviação brasileira dos próximos anos, sua aposta é o interior: cidades fora dos grandes centros, rotas regionais, movimento que a própria Azul já reflete em sua expansão e que o trabalho remoto acelera, tirando da capital parte da obrigação de morar perto do escritório.

Homem com uniforme de primeiro-oficial da Azul, óculos de sol, lanyard da companhia, fazendo gesto de positivo com o polegar, em frente a aeronave da Azul em pátio externo
Do quintal de Pirapora até o conselho da Azul — a progressão na aviação comercial foi o modelo que ele usou para estruturar o que ensina

Levanta, caiu, levanta de novo

Se há um ponto que o Comandante Ramos faz questão de reforçar além do que já ensina em suas palestras, é sobre o segundo F da fórmula — a força. Na visão dele, cair faz parte do percurso; o problema é a dificuldade cada vez maior das pessoas em se recompor depois. “Hoje as pessoas estão cada vez menos resistentes a levantar das quedas, e a queda é normal”, diz. É o que observa, com frequência crescente, em funcionários novos e alunos da Safe: gente com foco e objetivo claros, que desiste na primeira frustração. Credita a própria resistência às adversidades acumuladas ao longo da carreira — não como sofrimento a ser exibido, mas como treino. “É muito cíclico. Tem dia que é ruim, tem dia que é bom”, resume.

A fórmula que não muda

Volta, no fim, à mesma frase do começo. Foco para não se dispersar — o mesmo que separava limão vendável de manga parada, décadas atrás. Força para aguentar as quedas e levantar — a mesma que sustentou dois anos de reconstrução na Azul Conecta e uma escola quase fechada em plena pandemia. Fé para acreditar que vai dar certo — a mesma que transformou um milhão de reais captado em um mês numa escola avaliada em 60 milhões.

O critério é o mesmo desde os 12 anos; o que mudou foi o tamanho da operação em que ele é aplicado. Hoje decide expansão de aeroporto, frota digital, rodada de investimento — e ainda decide, todo dia, se um piloto recém-formado está pronto para voar sozinho.

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Formação de pilotos e desenvolvimento de liderança para quem quer voar com método e consistência