Ele entra na sala com a mesma energia de quem acabou de subir ao palco pela primeira vez. Voz firme, olhos vivos, sorriso fácil. Massaru Ogata tem 80 anos — ou, como ele mesmo prefere dizer, “80 mil quilômetros rodados, modelo 2026 Turbo, ainda em plena aceleração”. A brincadeira revela muito mais do que humor: é a filosofia de um homem que nunca parou de andar para frente, mesmo quando o caminho se fechava diante dele.
Filho de imigrantes japoneses, Massaru carrega no sobrenome um simbolismo que ele não precisa explicar — a disciplina, o método e o comprometimento que permeiam cada treinamento, cada palestra, cada decisão da sua trajetória. Nascido em 1946, ele foi fabricado — como gosta de dizer — num Brasil que ainda engatinhava na cultura do desenvolvimento humano. E foi exatamente esse Brasil que ele ajudou a transformar.
A história começa em Maringá, onde um jovem propagandista da Johnson & Johnson descobriu que sabia vender — mas que o que realmente o movia era ensinar os outros a fazerem o mesmo. Em um ano e meio, bateu recordes de vendas. A promoção veio rápida, depois outra, e mais outra, até que ele chegou à gerência nacional de treinamento e desenvolvimento humano da empresa. Foram 17 anos ali dentro — 12 deles dedicados integralmente à formação de pessoas. Mas a Johnson não era só um emprego. Para Massaru, era dele.
“Eu pensei como dono da empresa o tempo todo”, conta. “Enquanto estive lá, fiz o meu melhor — e quando decidi sair, a Johnson foi minha primeira grande cliente.” Essa frase resume uma das lições centrais que ele leva a cada formação: a lealdade genuína não é ingenuidade, é estratégia de longo prazo. Quem serve bem, colhe.
A virada aconteceu aos 45 anos, no cruzamento que ele chama de “carreira em Y”. De um lado, a segurança de continuar na empresa como executivo, com aposentadoria programada e título de diretor no horizonte. Do outro, o sonho de empreender — levar ao mercado tudo o que havia aprendido e buscado, até mesmo nas férias, inclusive fora do Brasil. A escolha foi pelo braço do empreendimento. Mas não foi um salto no escuro: foram cinco anos de preparação silenciosa, de acúmulo de reservas financeiras e de conhecimento, de viagens internacionais em busca de formações que o Brasil ainda não oferecia. “Para ninguém ser um espermatozoide aloprado”, ri ele, ao explicar que juntou reservas suficientes para cinco anos sem fechar um único contrato. “Você tem que explodir a ponte — mas só depois de ter construído a nova passagem.”
“Eu me preparei muito”, diz ele. “No início, era um copo d’água na cabeça. De tanto buscar, virei uma caixa d’água. Porém minha ambição positiva sempre foi uma cachoeira — e eu ainda estou chegando lá.” Essa cachoeira tem um nome: o IFT, o Instituto de Formação de Treinadores, que ele criou quando tinha por volta de 62 anos. Uma segunda fundação. Um segundo começo. Aos 80, ele prefere chamá-la de clímax.

A receita que você pode incrementar
O IFT nasceu de uma pergunta simples e vertiginosa: é possível comprimir 35 anos de experiência como treinador em sete dias? Massaru foi colocando no papel, item a item, e descobriu que sim. Hoje, 18 anos depois, mais de 2.500 treinadores e treinadoras foram formados pela metodologia do instituto — o primeiro e maior do gênero no Brasil. Entre eles, nomes que o mercado já conhece bem: Marcos Marques, filho do fundador do IBC e hoje considerado um bilionário do setor de treinamentos, fez o IFT na segunda edição, ao lado do pai. Wendell Carvalho, que já treinou mais de 117 mil pessoas, também passa pela mesma origem. Jerônimo Temel é outro nome que enriqueceu a metodologia a partir da formação do instituto.
Massaru não forma clones. Ele entrega receita — e encoraja o aluno a incrementar. “Você recebe a receita da paella”, explica, com aquela didática de quem passou décadas traduzindo conceitos complexos em imagens simples, “mas se na sua geladeira tem camarão, tem lagosta, tem lagostim, você pode jogar tudo isso aí e fazer um prato que não sobra nem para o gato.” O IFT não fabrica treinadores em série. Forma profissionais que encontram o seu próprio molho.
A formação cobre desde palestras de uma hora e meia até imersões de uma semana inteira — sete dias com ele no palco, das oito da manhã até à noite, sem microfone em parte da sua história (“na época da Johnson, nem microfone tinha”), sem perder a voz, sem baixar a energia. Dentro dessa semana, o treinando vivencia dinâmicas de grupo, atividades experienciais ao ar livre e indoor, programação neurolinguística, análise transacional, gestalt training, liderança situacional e técnicas de oratória. Cada dinâmica vem acompanhada de um debriefing estruturado — o momento em que explica não apenas o que aconteceu, mas como e por que aquilo pode ser replicado. É ali que o treinador nasce, não no diploma. Para quem o vê de perto, isso não é esforço. É o que acontece quando uma pessoa encontra o seu propósito e decide viver dentro dele.
E o suporte não termina na formatura. O ecossistema do IFT inclui mentoria pós-formação, acompanhamento no primeiro treinamento, plataforma de conteúdos e uma comunidade de treinadores que se reconhecem pela mesma origem. “A gente não forma e abandona”, diz ele. “Quem entra no ecossistema não sai mais.” Não pela dependência, mas pelo pertencimento.

O líder que precisa aprender a delegar
Além do IFT, Massaru Ogata é referência nacional em liderança situacional — uma metodologia que ele aplica em empresas há décadas e que resume em uma frase devastadoramente precisa: “Nada é tão desigual quanto tratar de forma igual colaboradores diferentes.” A frase provoca sempre o mesmo silêncio nas salas. Porque é verdade demais para ser ignorada.
A liderança situacional parte de um princípio aparentemente simples: o gestor precisa identificar em que nível de desenvolvimento cada colaborador se encontra em cada tarefa específica — e ajustar seu estilo de liderança de acordo com isso. Um colaborador que ainda não sabe como executar determinada função precisa de direção, não de elogios. Outro que sabe fazer mas está desmotivado precisa de motivação, não de micro-gerenciamento. Parece óbvio. Entretanto, a maioria das empresas trata todos da mesma forma — e colhe os resultados que merece.
“A maior dor que eu vejo nos empresários é não conseguir escalar”, diz ele. “E a razão é quase sempre a mesma: o dono da empresa não treinou a equipe. Ele quer delegar sem ter preparado ninguém para receber essa delegação.” O teste que ele propõe aos gestores é simples e cruel: quando foi a última vez que você tirou férias sem checar o telefone? “Se você não consegue se ausentar, você não tem uma equipe. Tem dependência.” O treinamento existe justamente para romper esse ciclo.
Três pilares, uma cachoeira
Para Massaru, existe uma arquitetura que explica qualquer trajetória de sucesso — a sua, a dos alunos que formou, a das empresas que treinou. São três pilares: conhecimento, propósito e legado. O primeiro sem o segundo é técnica vazia. O segundo sem o terceiro é ego disfarçado de missão. Os três juntos formam o que ele nomeia de chamado — essa força que não deixa a pessoa parar, que acende algo que nem o cansaço consegue apagar.
“Uma vida sem propósito não é vida”, afirma, com a naturalidade de quem repete uma convicção há décadas. “É vazia.” E ele sabe do que está falando — não como filosofia abstrata, mas como experiência vivida. Toda segunda-feira, dá aulas online com o título “O Seu Chamado”. Porque as perguntas continuam as mesmas: o que você quer? Por que parou de sonhar? O que faria se soubesse que não ia fracassar? Na sua análise, os problemas emocionais da humanidade não mudaram em quarenta anos de trabalho. A raiz é sempre a mesma: as pessoas não sabem o que querem, perderam o foco e pararam de sonhar como se sonhar fosse coisa de criança. “Depressão é excesso de passado”, define ele. “Ansiedade é medo do amanhã. E entre os dois, as pessoas esquecem de viver o presente — que é o único lugar onde a felicidade de fato existe.”
Ele cita o conceito japonês de ikigai — iki, vida; gai, propósito — como a bússola que usou quando chegou ao cruzamento da carreira em Y. E cita o kodawari, o capricho como método de vida: comece pequeno, mas com excelência; mire o topo da escada, mas suba degrau a degrau. Esses conceitos não são decorativos. São operacionais. São o modo como Massaru Ogata constrói tudo — os treinamentos, os relacionamentos, a própria vida.

O milagre que veio dar continuidade ao legado
Mas nenhum capítulo de sua história é mais poderoso do que o da filha Bianca. E não porque seja uma história de sucesso profissional — embora seja isso também. Mas porque começa com uma impossibilidade.
Depois de perder um filho com apenas um ano de vida, Massaru e sua esposa Lúcia foram ao médico em busca de recomeçar. O problema: a laqueadura já havia sido feita. A solução apresentada foi uma cirurgia de reanastomose tubária, ainda experimental no Brasil, realizada com a equipe do doutor Nakamura, da USP. Lúcia foi cobaia de um procedimento que poucos haviam feito no país. O resultado chegou positivo: a cirurgia havia funcionado. No entanto, o tempo havia cobrado seu preço — as trompas, dos dois lados, paralisaram. Sem movimento, sem captação. Sem possibilidade de gravidez. “O médico falou: vocês só vão ter um filho se Aquele lá de cima quiser”, conta Massaru. “Estava me dizendo que precisaria de um milagre.”
O casal adotou o Luiz Miguel e seguiu em frente. Três anos depois, Lúcia ligou para o marido com uma pergunta estranha: “Você está de pé ou sentado?” Ele estava de pé. Sentou. E esperou. A voz do outro lado da linha tremia entre o choro e a incredulidade, até que as palavras saíram: “Você vai ser papai.” O médico explicou depois: em um momento único, a trompa esquerda se movimentou, captou um óvulo e fez o que os exames diziam ser impossível. A gravidez havia chegado aos 40 anos da mãe, sem aviso, sem planejamento, como chegam os milagres.
Bianca nasceu. E cresceu dormindo debaixo das pernas do DJ nos treinamentos do pai. Com dez anos, implorava para participar da Conexão Alfa. Aos doze, foi liberada — e andou na brasa, fez queda livre, mergulhou de cabeça numa dinâmica de alto impacto que a maioria dos adultos enfrenta com tremores. Aos dezessete, estava dando treinamentos. Hoje, é sócia-diretora do IFT, Head Trainer do Ânima Training e especialista em constelações sistêmicas — uma área que ela própria desenvolveu dentro do instituto. “Ela era para vir”, diz ele, simplesmente. “Só pode ter sido um milagre. E ela veio para continuar o legado.”
Quando o assunto é legado, Massaru não fala em aposentadoria. Fala em viagem para a Itália — Roma primeiro, depois Toscana, com imersão internacional incluída. Fala em pesca em alto-mar, em 550 tilápias fisgadas uma a uma em dia e meio no sítio, ao lado do filho que veio do Canadá visitá-lo. Fala em cozinhar, pesquisar receitas no Instagram, experimentar molhos novos sobre receitas antigas. Fala em continuar rodando — e em continuar com a humildade de sentar como aluno sempre que houver algo a aprender. “No dia que eu disser que já sei tudo sobre desenvolvimento humano”, avisa, “é porque não sei nada. Eu sei que tenho que ter essa humildade. Porque se vender pelo ego significa se vender barato.”
“As pessoas que escolhem a estagnação escolhem o vale”, diz ele, com aquela firmeza calma que só vem de quem já viu o suficiente. “E vale é o lugar escolhido para o cemitério. Então não se permita. Continue sonhando. Encontre os seus motivos para se levantar de manhã.” Aos 80 anos, ele ainda tem os dele — e sobe ao palco toda semana para provar.
Massaru Ogata é fundador e Head Trainer do IFT — Instituto de Formação de Treinadores, reconhecido como o primeiro e maior instituto do gênero no Brasil. Com mais de 2.500 treinadores formados, atua também em liderança situacional e desenvolvimento humano corporativo. Informações: ifttreinamentos.com.br