Em março de 2025, o BNI recebeu um dos executivos mais admirados do país para uma palestra que, antes mesmo de começar, já havia esgotado todos os lugares disponíveis. John Rodgerson, CEO da Azul Linhas Aéreas, compartilhou com empresários sua jornada de quase duas décadas no Brasil e os princípios que transformaram uma startup aérea em detentora de um terço do quinto maior mercado de aviação do mundo e o posto de maior companhia aérea do Brasil em número de destinos atendidos.
Não foi apenas mais uma palestra corporativa. Foi um encontro entre visões que se complementam: a filosofia "Givers Gain" do BNI e os valores que John implementou na Azul desde o primeiro dia. Ambos entendem que negócios verdadeiros se constroem sobre relacionamentos genuínos, confiança conquistada com consistência e a coragem de colocar pessoas antes de processos.
Durante a conversa, ficou evidente o porquê a Azul ter conquistado não apenas market share, mas corações. John não fala como um CEO distante da realidade — fala como alguém que atende clientes pessoalmente, que pede desculpas quando algo sai errado, que conhece os funcionários, aliás, todos na empresa são chamados de Tripulantes, pelo nome e liga quando eles têm um bebê ou perdem alguém querido.
Os valores que ele defende — segurança, consideração, integridade, excelência, inovação e paixão — não são palavras em uma parede. São a base de cada decisão, de cada interação, de cada relacionamento construído ao longo desses anos. E foi exatamente isso que os empresários do BNI vieram ouvir: como construir empresas que crescem sem perder a alma.
O Brasil que os brasileiros não veem
Quando chegou ao Brasil em 2008, com o Real a 1,58 e o PIB crescendo forte, John viu o que poucos enxergavam: um país gigante sendo tratado como três cidades.
"Vim para fazer algo diferente. Ninguém voava em aeronaves fabricadas no Brasil. E enfrentamos um duopólio que controlava 95% do mercado, conta. Mas sempre olhei o país como um Brasil grande. Meus concorrentes? Até hoje, 92% dos assentos deles só tocam Rio, São Paulo e Brasília. Na Azul, são 35%."
A estratégia foi ousada: construir uma malha aérea conectando o interior — Campinas, Minas Gerais, Pernambuco. "Há vários Brasis. O Brasil do Sul, da Faria Lima, do Agro. E muitos brasileiros querem ir para os Estados Unidos ou Lisboa. Daí eu penso: em qual país você monta algo do zero e conquista um terço do quinto maior mercado de aviação do mundo?"
Ele faz uma pausa. "Quero que os brasileiros acreditem mais no próprio país. É complicado fazer negócio aqui? É. Porém se você entende bem, as oportunidades são enormes."

A lição mais importante: relacionamento primeiro
John lembra de um jantar em São Paulo com um banco, no início da Azul. Ele estava negociando durante a refeição quando Pedro Janot, então presidente e brasileiro, o repreendeu no carro: "Para de falar sobre negócio durante o jantar."
"Falou: 'Como assim? Não sou amigo do banco.' E ele: 'Aqui primeiro você cria o relacionamento, depois faz negócio.'"
Essa lição mudou tudo. "Nos Estados Unidos é muito direto. Aqui, o brasileiro quer confiar em você, gostar da sua marca. Minas Gerais, por exemplo — somos a maior empresa aérea de lá, mas demorou. Eles são desconfiados. Com o tempo, o relacionamento se consolida."
O fato de voar em aeronaves da Embraer desde o início ajudou. "Era uma declaração: acreditamos no Brasil."
Pandemia: o teste definitivo
Quando pergunto qual história mais o marcou, John não hesita: "A pandemia. Aprendemos que nosso maior ativo é nosso pessoal."
Dos 13.500 funcionários na época, 12.716 tiraram licença não remunerada voluntariamente. "Só tínhamos despesas saindo, nenhuma entrada. Pior: devolvíamos dinheiro de passagens canceladas. Nosso pessoal se uniu para proteger e salvar a empresa."
Por que a Azul teve esse apoio e os concorrentes não? "Pela maneira que tratamos as pessoas desde o primeiro dia. Todo novo tripulante é recebido pelo presidente. Falamos sobre cultura. E não são só palavras."
O Rio Grande do Sul foi outro exemplo. "Eram 10% da nossa receita que viraram zero. Mas nosso pessoal não pensou nisso. Pensou nos irmãos que estavam lá. Fomos a primeira empresa aérea a voar levando doações: água, medicina, móveis. Nosso próprio pessoal doando tempo e recursos."
Ele se inclina para frente. "Você não tem enchente todo dia, não tem pandemia todo dia. Contudo a maneira como trata seu pessoal no básico, no dia a dia, faz com que nos momentos difíceis as pessoas se unam."
Valores, não regras
A história que melhor ilustra a cultura Azul aconteceu antes mesmo da empresa existir. John chegou com 50 minutos de antecedência em um voo de concorrente. "Você não pode entrar. Nossa regra é assim."
"Muitas empresas dão regras. Nós damos valores: segurança, consideração, integridade, excelência, inovação e paixão. Se você pode ser flexível e ajudar o cliente, seja."
O exemplo: um passageiro humilde do Nordeste com cinco malas. "A regra é cobrar. Mas sabemos que ele não tem dinheiro. Alguém baseado em valores pensa: 'É a coisa certa a fazer. Se o dono estivesse aqui, faria o mesmo.'"
Dar poder para a ponta no atendimento cria magia. As histórias chegam todos os dias: uma funcionária fazendo maquiagem em passageira atrasada para casamento. Um comandante acalmando clientes nervosos revoltados com atraso por motivo de manutenção. "Você não ensina isso.
Você inspira isso."
Pequenos empresários, grande futuro
Quando pergunto sobre o programa para pequenos e médios empresários que ele mencionou na palestra, seus olhos brilham.
"Tratamos muito bem Vale, Petrobras, Itaú. Mas a maior parte dos empregos é de pequenos empresários. E uma tarifa diferenciada, um desconto para eles é muito mais relevante do que para uma grande empresa."
E existem soluções? O cartão de crédito da Azul em parceria com o Itaú é um exemplo. "Cada compra, 10% de desconto. Não dou isso para Petrobras. Mas um empresário pode ter, acumular pontos comprando para si e funcionários."
Ele gesticula com paixão. "O Brasil tem os grandões e um monte de pequenas e médias empresas. Temos que fazer uma ponte. Porque essas pequenas empresas dão emprego para meus clientes. É assim que o Brasil anda para frente."

IA para aproximar, nunca distanciar
Sobre inteligência artificial, John é categórico: "IA é para chegar mais perto do cliente, não para tornar impessoal."
Ele explica: "Tenho 15 mil tripulantes. Quando entra um WhatsApp, a IA pode me ajudar: 'Ah, John, você ligou para a Isa quando ela teve bebê.' Quero que seja pessoal, não frio."
Mesmo no call center. "Imagina: 'Fernanda, primeiro quero pedir desculpas. Sei que seu voo de Curitiba atrasou uma hora.' Não fica impessoal. É o que IA deve fazer."
Ele cita a Netflix como exemplo de IA bem usada. "Mas hoje vejo empresas usando IA para manipular, levar para onde querem. Nós queremos trazer o cliente para perto. É completamente diferente."
Conselhos para si mesmo
"O que diria para o John de 2008? Não fique tão bravo com pequenas coisas. Era muito jovem, muito nervoso. O mundo é pequeno. Pessoas com quem você trabalhou há 20 anos, vai trabalhar com elas de novo."
Ele sorri com orgulho. "Era vice-presidente de finanças, virei presidente. Cinco caras que trabalharam comigo viraram CFOs, aqui ou em outras empresas. Ver o progresso das pessoas é muito bacana."
E para o John de 2030? Ele ri. "Não faço ideia. Não faço ideia."
Família e empresa: sem separação
Sobre equilibrar vida pessoal e profissional, John é direto: "Muita gente acha que há um balanço. Acho que não existe."
"Ligam sábado, domingo, à noite. Mas também posso falar com minha esposa durante o dia. Tenho um filho nos Estados Unidos, falo com ele a qualquer momento.Todo mundo aqui conhece minha família. Minha família conhece todo mundo. Somos parte de uma grande família. Não é uma vida dentro da Azul e outra fora. É tudo misturado. Você é quem você é."
Legado em construção
Porque no fim, a história da Azul não é sobre aviação. É sobre acreditar no Brasil quando poucos acreditavam. Sobre construir relacionamentos quando a regra era dar ordens. Sobre dar poder para a ponta quando o normal era controlar tudo do topo.
É sobre 12.716 pessoas abrindo mão de salário para salvar a empresa que as acolheu. Sobre funcionários voando doações para o Rio Grande do Sul. Sobre uma atendente fazendo maquiagem em uma passageira atrasada.
São essas pequenas magias que acontecem quando você lidera com valores em vez de regras. Quando você inspira em vez de obrigar. Quando você acredita que as pessoas, se tratadas com consideração e confiança, farão sempre a coisa certa.
E talvez seja por isso que a palestra lotou. Em um mundo de CEOs inacessíveis e empresas impessoais, John Rodgerson prova que dá para crescer sem perder a alma. Que dá para ter 15 mil funcionários e ainda ligar quando eles têm bebês. Que dá para conquistar um terço de um mercado gigante e ainda tratar cada cliente como família.
Depois de quase 20 anos, 32 milhões de passageiros transportados por ano, a Azul não é apenas uma companhia aérea. É a prova viva de que quando você acredita nas pessoas e no país, coisas extraordinárias acontecem.
E o Brasil, como John insiste em dizer, é muito maior do que o triângulo Rio-São Paulo-Brasília. Basta ter coragem de voar mais longe.